quinta-feira, 17 de abril de 2008

Joanna

Foi na noite quente daquele verão que conheci Pascoal. Eu usava uma regata e uma bermuda até os joelhos, pois ele me olhava mais o semblante, já que eu estava feliz.
Pascoal Trazia na mochila a recordação de uma primavera desconsolada e noites mal dormidas, conseqüências de boêmias sem fim.
Ele sentou-se no banco daquela praça solitária, só estávamos eu e a noite, olhou-me e perguntou a razão da minha solidão instantânea. Pois assim respondi-lhe com franqueza:
"Meu cavaleiro ainda não chegou. Deve estar lutando por aí, junto com São Jorge, em alguma Lua, ou em alguma mata distante daqui. Mas, disse-me ele que virá me ver."
Pascoal sorriu com a minha declaração e perguntou-me como me chamava. Respondi-lhe Natália, pois naquela vida me parecia favorável àquela conversa agradável, ele me deu a entender que eu pudera sorrir com a brisa mansa de tal noite; também perguntei seu nome, o qual já se sabe...
Então, ele me olhou com uma delicadeza imensa e contou-me sua história.
"Vim de longe. Das terras mais áridas e dos sóis mais bravos. Das areias e da poeira dos desertos quentes durante o dia, frios durante a noite, como todo deserto... Andei milhas para encontrar minha deusa, que foi raptada durante a guerra entre os clãs; não é costumeiro os guerrilheiros fazerem tal arte, mas minha deusa era forte, e comandava oásis por todo o mundo... É uma espécie de jogo de tabuleiro, onde só os reis de verdade imperam! Ah! Minha deusa, quanta falta tenho dela! Ela sorria como as estrelas, cantava como as gaivotas; ela era livre. E era muito bela! Como a Lua, o Sol e a Mãe Natureza juntos!
Levaram-na... Pra onde... Não faço idéia... Ela que sempre me guiava, agora procuro ela, a fim de tomar meu rumo... Onde ela está?! Gostaria de ao menos trilhar o caminho que 'a Bela' - é assim que a chamo - me ensinou, mas me falta o rumo... De fato, procurei-a em todos os campos de batalha, 'a Bela' me mostrou como ser forte e como chorar com sinceridade. Mas agora a falta dela me sufoca muito mais que a poeira que aspirei!
‘A Bela’ me mostrou como sobreviver a este mundo pérfido e tão necessitado do amor da alma, mas sem ela é quase impossível...”
Em um breve intervalo, lembrei-me de Shakespeare: “Se você ama alguém ou algo, deixe que parta. Se voltar é porque é seu, se não voltar, é porque não deveria”.
E ele continuou.
“Em dois anos, estive em um grande reino, onde me arranjei por lá e consegui alguma notícia sobre ela, mas sempre que pedia pra partir, todo o reino não deixava... Não sei se era porque era querido ou porque servia de cavaleiro de montaria e ensinei muitos truques de guerra aos moços.
Enfim, não suportei por muito tempo e parti com o firme propósito de encontrar minha deusa. Segui as pistas que me eram chegadas, por todas as bandas do oeste asiático ouviram-se gritos de guerra, provocado entre os clãs, e lá viam ‘a Bela’, amarrada às costas de algum dos cavaleiros, exposta aos combates. ‘A Bela’ sempre lutara com muita garra, mas tal situação era devastadora para a minha deusa: desidratada, faminta, sem armamentos, enfim, sozinha.
Nunca me cansei de imaginar suas dores, embora toda a bravura de minha deusa; era mais dolorido em mim... Ah! Quanto senti por ter permitido minha deusa entre tantas espadas e escudos! Jamais deveria ter deixado ‘a Bela’ tomar decisões tão escrupulosas... Mas, o que poderia fazer?! Ela tomava suas próprias decisões, sem consultar sequer a si mesma! Era imediato. Não poderia a impedir.
Minha deusa foi levada pelos guerrilheiros e há muito ouço rumores de que ‘a Bela’ está sem vida. Por isso, este pobre perambula pelas estradas mundanas, sentindo nos pés a dor das pedras dos caminhos. Às vezes adormeço em qualquer lugar e acordo com a chuva pingando em meu rosto, ou, às vezes, passo dias e noites sem sono algum, lembrando da fisionomia mansa e das palavras bravas de minha deusa. Ela chamava-se Joanna.”
Nisso, Pascoal deixou cair uma gota de sua retina, mais parecia uma criança desamparada. Acolhi sua lágrima com carinho e receio.
Ele levantou, agradeceu-me e partiu.

3 comentários:

M. Lander disse...

É interessante como a srta. Sophia consegue colocar um pouco de si em cada personagem.. Na impulsividade de Joanna, na cumplicidade de Pascoal, na mera compreensão de Natália...

Ai, como é tão bom de lerrr...


♥ você, Ana Sophia!

Barbie Destrossada(sic) disse...

Que bela amazona é Joanna!
Como uma brava e belíssima mulher que habita um de nossos reinos!
Pobre Pascoal... na procura incerta de sua Deusa...
'A Bela', como espelho de nós mesmas.

Amo-te!
~(L)~

Maria Helena disse...

A pior coisa do mundo deve ser vagar sem destino procurando por algo incerto.