Foi na noite quente daquele verão que conheci Pascoal. Eu usava uma regata e uma bermuda até os joelhos, pois ele me olhava mais o semblante, já que eu estava feliz.
Pascoal Trazia na mochila a recordação de uma primavera desconsolada e noites mal dormidas, conseqüências de boêmias sem fim.
Ele sentou-se no banco daquela praça solitária, só estávamos eu e a noite, olhou-me e perguntou a razão da minha solidão instantânea. Pois assim respondi-lhe com franqueza:
"Meu cavaleiro ainda não chegou. Deve estar lutando por aí, junto com São Jorge, em alguma Lua, ou em alguma mata distante daqui. Mas, disse-me ele que virá me ver."
Pascoal sorriu com a minha declaração e perguntou-me como me chamava. Respondi-lhe Natália, pois naquela vida me parecia favorável àquela conversa agradável, ele me deu a entender que eu pudera sorrir com a brisa mansa de tal noite; também perguntei seu nome, o qual já se sabe...
Então, ele me olhou com uma delicadeza imensa e contou-me sua história.
"Vim de longe. Das terras mais áridas e dos sóis mais bravos. Das areias e da poeira dos desertos quentes durante o dia, frios durante a noite, como todo deserto... Andei milhas para encontrar minha deusa, que foi raptada durante a guerra entre os clãs; não é costumeiro os guerrilheiros fazerem tal arte, mas minha deusa era forte, e comandava oásis por todo o mundo... É uma espécie de jogo de tabuleiro, onde só os reis de verdade imperam! Ah! Minha deusa, quanta falta tenho dela! Ela sorria como as estrelas, cantava como as gaivotas; ela era livre. E era muito bela! Como a Lua, o Sol e a Mãe Natureza juntos!
Levaram-na... Pra onde... Não faço idéia... Ela que sempre me guiava, agora procuro ela, a fim de tomar meu rumo... Onde ela está?! Gostaria de ao menos trilhar o caminho que 'a Bela' - é assim que a chamo - me ensinou, mas me falta o rumo... De fato, procurei-a em todos os campos de batalha, 'a Bela' me mostrou como ser forte e como chorar com sinceridade. Mas agora a falta dela me sufoca muito mais que a poeira que aspirei!
‘A Bela’ me mostrou como sobreviver a este mundo pérfido e tão necessitado do amor da alma, mas sem ela é quase impossível...”
Em um breve intervalo, lembrei-me de Shakespeare: “Se você ama alguém ou algo, deixe que parta. Se voltar é porque é seu, se não voltar, é porque não deveria”.
E ele continuou.
“Em dois anos, estive em um grande reino, onde me arranjei por lá e consegui alguma notícia sobre ela, mas sempre que pedia pra partir, todo o reino não deixava... Não sei se era porque era querido ou porque servia de cavaleiro de montaria e ensinei muitos truques de guerra aos moços.
Enfim, não suportei por muito tempo e parti com o firme propósito de encontrar minha deusa. Segui as pistas que me eram chegadas, por todas as bandas do oeste asiático ouviram-se gritos de guerra, provocado entre os clãs, e lá viam ‘a Bela’, amarrada às costas de algum dos cavaleiros, exposta aos combates. ‘A Bela’ sempre lutara com muita garra, mas tal situação era devastadora para a minha deusa: desidratada, faminta, sem armamentos, enfim, sozinha.
Nunca me cansei de imaginar suas dores, embora toda a bravura de minha deusa; era mais dolorido em mim... Ah! Quanto senti por ter permitido minha deusa entre tantas espadas e escudos! Jamais deveria ter deixado ‘a Bela’ tomar decisões tão escrupulosas... Mas, o que poderia fazer?! Ela tomava suas próprias decisões, sem consultar sequer a si mesma! Era imediato. Não poderia a impedir.
Minha deusa foi levada pelos guerrilheiros e há muito ouço rumores de que ‘a Bela’ está sem vida. Por isso, este pobre perambula pelas estradas mundanas, sentindo nos pés a dor das pedras dos caminhos. Às vezes adormeço em qualquer lugar e acordo com a chuva pingando em meu rosto, ou, às vezes, passo dias e noites sem sono algum, lembrando da fisionomia mansa e das palavras bravas de minha deusa. Ela chamava-se Joanna.”
Nisso, Pascoal deixou cair uma gota de sua retina, mais parecia uma criança desamparada. Acolhi sua lágrima com carinho e receio.
Ele levantou, agradeceu-me e partiu.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
domingo, 6 de abril de 2008
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Sempre o Tempo!
segunda-feira, 31 de março de 2008
Apologia ao Tempo
Um pensar corroído
Obstante um tempo passado
Remoto, que alucina
Cria especulações
Não denota a saliência
Da fúria de dragões
Para a inconveniência
De males que afetam
Porque tempo não corrói
As rugas do rosto
Apenas instruciona
O que haveria de ser feito
De uma forma simbólica
Uma margem de erros
Progressos e sucessões
É mais que uma gramática
E toda língua humana
Não há elixir que prolongue
A vida e o tempo nosso
Tempo forte, tempo louco
Nem sequer me deixa quieto
Sinto as veias corriqueiras
Do tempo que já perdi
Um mensageiro do tempo
Olha pro tempo perdido
Sente o cheiro da saudade
Insinua a esperança
Do tempo que ainda virá
Meio poema desconcertado, de uma noite tranqüila e amedrontado pelos lados...
Obstante um tempo passado
Remoto, que alucina
Cria especulações
Não denota a saliência
Da fúria de dragões
Para a inconveniência
De males que afetam
Porque tempo não corrói
As rugas do rosto
Apenas instruciona
O que haveria de ser feito
De uma forma simbólica
Uma margem de erros
Progressos e sucessões
É mais que uma gramática
E toda língua humana
Não há elixir que prolongue
A vida e o tempo nosso
Tempo forte, tempo louco
Nem sequer me deixa quieto
Sinto as veias corriqueiras
Do tempo que já perdi
Um mensageiro do tempo
Olha pro tempo perdido
Sente o cheiro da saudade
Insinua a esperança
Do tempo que ainda virá
Meio poema desconcertado, de uma noite tranqüila e amedrontado pelos lados...
segunda-feira, 17 de março de 2008
Pensamento?!?
Amar sem ter por quê... Amar porque se ama... Amar, amar, amar...
"Se eu não sou deste mundo então por que estou aqui? Se eu for perguntar pra Deus ele não vai me responder, eu faço um caminho onde a guerra ataca precisamente sem aviso prévio."
"Se eu não sou deste mundo então por que estou aqui? Se eu for perguntar pra Deus ele não vai me responder, eu faço um caminho onde a guerra ataca precisamente sem aviso prévio."
sábado, 1 de março de 2008
Uma Amanda
Amanda despedaçava seus sonhos, involuntariamente. Buscava a cada dia renovar seu arquivo de tranqüilidade, mas tornava-se cada vez mais atormentada. Queria distingüir realidade e fantasia, mas tudo era distorcido aos seus olhos.
Agora Amanda sangrava, definhava; suas mãos não obedeciam os comandos de seu cérebro. Amanda estava morrendo, mas sem sentir seus pulsos doloridos, e enojadamente, sentia sua alma caindo num abismo, gritando por socorro. Ela não fora capaz de se salvar.
Olhou ao redor, o que via era a negra penumbra do quarto e seu sangue escorrendo pelo chão limpo.
"Daqui a umas horas serei apenas mais um corpo no necrotério, na sala de autópsias."
Há muito tempo, Amanda pedira paz, hasteara a bandeira branca, mas a verocidade da sua morte gritara mais alto.
Amanda fechou os olhos e adormeceu.
Mesmo de olhos fechados, via fantasmas ao seu redor, dizendo que todo o feito fora em vão, ali ela estava mais perdida. As saídas não existiam, e um labirinto começou a formar-se na mente da pobre e inocente jovem Amanda.
Quando abriu os olhos, sobressaltada, uma mão pousou leve em sua testa. "Descansa!". Ouviu um sussurro. Olhou para o teto, mas a claridade a impedia de enxergar qualquer coisa. Fechou os olhos, duvidando de sua vida e também do paraíso.
Foram horas seguidas de total confusão entre o sonho da vida e sono da morte.
Amanda sentia a mão que pousara em sua testa sobre sua mão, tão pequena e fria, enquanto a outra tão calorosa lhe passava a sensação de um abrigo seguro.
Sua respiração ficava cada vez mais difícil, os tubos no nariz e na boca incomodavam-na. "Que ótimo! Eu não morri!" - ironizou em pensamento -. Alguém lutara pela vida de Amanda, mas não existia motivo algum para este feito. Ela queria, verdadeiramente, deixar a vida. E aquilo a fez sentir uma repulsa ainda maior.
Dois meses após a saída de Amanda do hospital (com uma bela história pra contar não sabia pra quem), o médico gentil que ficara velando dia e noite por ela vai até sua casa para visitar-lhe, mas a encontra deitada no chão, a cabeça envolta de uma poça de seu próprio sangue, os olhinhos castanhos ainda abertos, despida, um bilhete na mão e um revólver na outra.
"Faço minhas tuas palavras
Estou despida por que me masturbei pela última vez em minha vida, se a morte é prazerosa pra quem a tira, gostaria de sentir dois prazeres, um após o outro. Tudo o mais é superficial e ingênuo. A bala que está dentro de minha cabeça agora percorreu todo o meu corpo. 'Não se assuste com a morte, pois a vida trás consigo conseqüências bem piores, inclusive o suicídio...' Foi isso que ouvi de tua boca.
Perdoe-me pelo tempo que o fiz perder em cuidar de mim, mas não quero viver mais um segundo. A ausência da vida é melhor que a solidão em que me encontrava."
Agora Amanda sangrava, definhava; suas mãos não obedeciam os comandos de seu cérebro. Amanda estava morrendo, mas sem sentir seus pulsos doloridos, e enojadamente, sentia sua alma caindo num abismo, gritando por socorro. Ela não fora capaz de se salvar.
Olhou ao redor, o que via era a negra penumbra do quarto e seu sangue escorrendo pelo chão limpo.
"Daqui a umas horas serei apenas mais um corpo no necrotério, na sala de autópsias."
Há muito tempo, Amanda pedira paz, hasteara a bandeira branca, mas a verocidade da sua morte gritara mais alto.
Amanda fechou os olhos e adormeceu.
Mesmo de olhos fechados, via fantasmas ao seu redor, dizendo que todo o feito fora em vão, ali ela estava mais perdida. As saídas não existiam, e um labirinto começou a formar-se na mente da pobre e inocente jovem Amanda.
Quando abriu os olhos, sobressaltada, uma mão pousou leve em sua testa. "Descansa!". Ouviu um sussurro. Olhou para o teto, mas a claridade a impedia de enxergar qualquer coisa. Fechou os olhos, duvidando de sua vida e também do paraíso.
Foram horas seguidas de total confusão entre o sonho da vida e sono da morte.
Amanda sentia a mão que pousara em sua testa sobre sua mão, tão pequena e fria, enquanto a outra tão calorosa lhe passava a sensação de um abrigo seguro.
Sua respiração ficava cada vez mais difícil, os tubos no nariz e na boca incomodavam-na. "Que ótimo! Eu não morri!" - ironizou em pensamento -. Alguém lutara pela vida de Amanda, mas não existia motivo algum para este feito. Ela queria, verdadeiramente, deixar a vida. E aquilo a fez sentir uma repulsa ainda maior.
Dois meses após a saída de Amanda do hospital (com uma bela história pra contar não sabia pra quem), o médico gentil que ficara velando dia e noite por ela vai até sua casa para visitar-lhe, mas a encontra deitada no chão, a cabeça envolta de uma poça de seu próprio sangue, os olhinhos castanhos ainda abertos, despida, um bilhete na mão e um revólver na outra.
"Faço minhas tuas palavras
Estou despida por que me masturbei pela última vez em minha vida, se a morte é prazerosa pra quem a tira, gostaria de sentir dois prazeres, um após o outro. Tudo o mais é superficial e ingênuo. A bala que está dentro de minha cabeça agora percorreu todo o meu corpo. 'Não se assuste com a morte, pois a vida trás consigo conseqüências bem piores, inclusive o suicídio...' Foi isso que ouvi de tua boca.
Perdoe-me pelo tempo que o fiz perder em cuidar de mim, mas não quero viver mais um segundo. A ausência da vida é melhor que a solidão em que me encontrava."
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Desequilíbrio escrito em vermelho
Olhei bem pra tua face e agradeci ao céu por estar ali. Teus olhos me diziam mais que um simples "te quero", que eu te devolvia com uma "frase-olhar", nada discreta: "também quero te devorar"...
Nos abraçamos como se tivéssemos nos visto há anos, e uma saudosa lembrança quase que imperceptível nos invadia a alma. Como mergulhadores de encontro às profundezas oceânicas, nos beijamos, dispostos a encarar cada nova descoberta; teu corpo, meu corpo. Nos afagamos e eu podia sentir teu corpo estremecer com o toque de minhas mãos, assim como meu corpo se contorcia ao toque de teus lábios. Tu me afagava os cabelos, a nuca, com a ponta dos dedos e aquilo me fazia delirar, excitando-me, amavelmente.
O quarto pequeno tornara-se, fantasiadamente, o universo inteiro, apenas pra nós dois; ao passo que aumentávamos nossos estímulos mentais ligados naquele místico e envolvente abraço a claridade daquela tarde ensolarada, vinda da janela, parecia cair ao pôr-do-sol, ou seria apenas surtos de nossos hormônios com o calor de nossos corpos despidos e colados com o suor um do outro; um choque perene.
Nada mais nos interessava naquele longo espaço de tempo. Fazíamos amor como qualquer outro casal, mas "sem malabarismos"... Apenas nos desejávamos mais ainda.
Inocência ou malícia, pecado ou perdão, loucura ou sabedoria, tudo ao mesmo tempo; tudo à seu tempo.
E aquela tarde, que não será esquecida, nos trouxe sensações jamais experimentadas, pois ali libertamos nossos medos e esquecemos se éramos culpados ou não...
Nos abraçamos como se tivéssemos nos visto há anos, e uma saudosa lembrança quase que imperceptível nos invadia a alma. Como mergulhadores de encontro às profundezas oceânicas, nos beijamos, dispostos a encarar cada nova descoberta; teu corpo, meu corpo. Nos afagamos e eu podia sentir teu corpo estremecer com o toque de minhas mãos, assim como meu corpo se contorcia ao toque de teus lábios. Tu me afagava os cabelos, a nuca, com a ponta dos dedos e aquilo me fazia delirar, excitando-me, amavelmente.
O quarto pequeno tornara-se, fantasiadamente, o universo inteiro, apenas pra nós dois; ao passo que aumentávamos nossos estímulos mentais ligados naquele místico e envolvente abraço a claridade daquela tarde ensolarada, vinda da janela, parecia cair ao pôr-do-sol, ou seria apenas surtos de nossos hormônios com o calor de nossos corpos despidos e colados com o suor um do outro; um choque perene.
Nada mais nos interessava naquele longo espaço de tempo. Fazíamos amor como qualquer outro casal, mas "sem malabarismos"... Apenas nos desejávamos mais ainda.
Inocência ou malícia, pecado ou perdão, loucura ou sabedoria, tudo ao mesmo tempo; tudo à seu tempo.
E aquela tarde, que não será esquecida, nos trouxe sensações jamais experimentadas, pois ali libertamos nossos medos e esquecemos se éramos culpados ou não...
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